O Ladrão de Leite
Todos nós, empregados da Companhia Industrial
Santa Matilde, tínhamos direito a um copo de leite por dia. Quem não gostava de
leite, cedia sua ficha a outros empregados,
que juntando-as, no final do dia acabavam levando um ou dois litros de leite para
casa.
Mas assim como tinha os
que não gostavam, tinha também os que gostavam demais, isto é, aqueles que além
de tomar o seu, ainda roubava o de outra
pessoa.
Na seção onde trabalhei acontecia muito este
caso. Havia lá um rapaz, que como num ritual religioso, ao receber seu copo de
leite pela manhã, temperava-o com um pouco de sal, mexendo-o com uma colher e o
guardava na geladeira da seção, pronto para saboreá-lo na volta do almoço. Pois
nesta hora, principalmente durante o verão, chegava cansado e suando muito por
causa do calor dos ônibus.
Só que o coitado, raríssimas vezes conseguiu
seu intento de se refrescar com seu delicioso leite. Isto porque infelizmente,
dentro desta nossa turma de colegas, existia um exemplar destes que gostavam
demais de leite. O malandro não tomava o leite todo não, bebia só a metade do
copo e em seu lugar acrescentava água, tentando assim encobrir seu ato desleal.
O dono do leite por sua vez, ao chegar na
seção depois do almoço, pegava seu copo e no primeiro gole notava a diferença
no paladar e reclamava.
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Mexeram no meu leite outra vez... ele está aguado.
Isto aconteceu uma centena de vezes, até o
dia que o Jair, que era o encarregado da seção, resolveu por um fim naquela
situação desagradável. E para isto ele bolou um plano bastante punitivo para o
sem vergonha.
Assim num determinado dia lá, ele chamou o
rapaz e falou com ele.
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Esta situação não pode continuar mais, pois está ficando até chato pra todos
nós. De forma que já que você na maioria das vezes fica mesmo sem o leite, não
custa nada você ficar sem ele por mais uns dias.
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Como assim “seu” Jair?, perguntou o rapaz.
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Simples... eu vou te dar um bocado de “Sal de Glaubert”, para você por no leite
e continuar deixando-o na geladeira..
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Sal... o quê? Quê é isso? Indagou novamente o garoto.
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É purgante... basta um pouquinho e ele desanda o intestino de quem toma.
Repito, eu vou te dar um pouco e você coloca no leite como se fosse sal, mas vê
se põe pelo menos uma colher cheia, mas sem fazer alarde nenhum, fazendo da
maneira que você faz todo dia, e deixa-o na geladeira. Se o ladrão tomar, pode
crer, nós vamos ficar sabendo quem é ele.
E assim fizeram. O purgante foi misturado ao
leite e colocado no copo, enchendo-o até
ficar rente à linha do friso que fica logo abaixo da borda, e ficou na
geladeira a espera do larápio.
Lá pelas duas horas da tarde o Antônio levantou
de seu tamborete, e foi ao banheiro. Quinze minutos depois, já estava de volta
e começou a trabalhar novamente. Não passou nem meia hora, e ele voltou ao
banheiro novamente. Nesta altura o Jair que no fundo já suspeitava dele, e rindo muito, contou para os demais e todos
então ficaram observando as manobras do
Antônio.
Passou-se mais uns quinze minutos e ele
chegou de volta na seção. Abriu a porta,
mas não entrou ficou ali parado olhando fixo para a parede de frente e passando
a mão de leve e em círculos na barriga. De repente largando a porta aberta,
saiu correndo para o banheiro. E a turma que gostava do mal-feito, quase
deitava no chão para rir. E por lá ele ficou o resto da tarde só voltando quase
na hora da saída.
Antes de saírem da seção, o rapaz foi até a
geladeira e pegando seu copo, mesmo sabendo que ele tinha sido completado com
água, porque seu conteúdo estava fora da marca que havia feito, falou:
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É... o ladrão de leite hoje deu sorte... porque eu coloquei purgante no leite...
se ele toma não ia sair do banheiro hoje...
Quando ele falou isto foi uma festa, pois
todos aproveitaram para rir, com exceção do Antônio este não, agiu como se não
tivesse escutado. Mas o certo é que daquele dia em diante, nunca mais mexeram
no leite do rapaz.

