quarta-feira, 29 de junho de 2016

As aparências enganam

             Vamos Contá Causos... 
                        



 As aparências enganam
   


                             Havia em um município, um fazendeiro muito ardiloso que procurava todos os meios para vencer na vida. Trabalhava muito, desde cedo até à noite. Podia se dizer que era uma pessoa muito digna e honesta por excelência. Pois em toda redondeza, não havia ninguém quem não o conhecesse e o recomendasse. Porém, como disse Saint-Exupéry: “nada é perfeito”, e confirmando esta máxima, este fazendeiro não gostava de pagar impostos. E para burlar a fiscalização do governo, ele fazia de tudo.                                                       Administrando esta fazenda com muito carinho, ele em uma estufa muito bem construída, cultivava plantas ornamentais e flores de todos os tipos, que com as quais, abastecia duas lojas de floricultura que possuía na cidade vizinha à sua fazenda. Do mesmo modo, mantinha uma manga de porcos em sua propriedade, e já os levava abatidos para seu açougue, que ficava também próximo  a estas duas floriculturas. Desta maneira produzia ele suas próprias mercadorias, e com as quais mantinham seu comércio em ritmo ascendente.
 Em virtude da sonegação, começou o governo a fiscalizar suas atividades. E em consequência disso, foi designado numa tarde de uma sexta feira, dois fiscais da Receita Federal, para dar cabo a esta missão.
 Eram mais ou menos três horas da tarde, quando um fusquinha na cor cinza, estacionou à sombra de uma árvore, na estrada de acesso à fazenda, com ordem de parar e inspecionar todos os veículos que por lá passassem. Com esta providencia, visavam eles autuar o fazendeiro sonegador, quando por lá passasse no dia de hoje, com suas cargas para as lojas da cidade.
Não tardou muito para que o empresário do campo, tomasse conhecimento da providência da fiscalização. E comentou com um empregado seu.

--- Logo agora que estou com grande quantidade de flores colhidas e um porco abatido... e amanhã ainda por cima é sábado, o dia em que as lojas vendem mais...

--- È patrão... mas se eu fosse o senhor, não me arriscaria passar por lá não... porque eles estão parando todos os veículos e olhando tudo. Disse seu ajudante.

--- Isso não... eu não vou perder esta mercadoria de jeito nenhum... tem que haver um jeito. E pensando desta forma começou a  planejar uma saída para fazer a entrega em suas lojas.

                        Quando foi lá pelas seis horas da tarde, chamou seu empregado e mandou que trouxesse um caixote comprido que havia no celeiro da fazenda. Com um serrote, um martelo e alguns pregos, colocou este caixote com a aparência de um caixão mortuário. Depois disso, mandou que colocasse o porco dentro dele e ajeitasse as flores por cima dele, cobrindo-o de uma tal forma que mal ficou de fora, somente a sua cara. Pegando de dois, colocaram o caixão na carroceria da camioneta e do lado desta, o restante das flores que não couberam dentro. Feito isso partiu para a cidade. Ainda não eram sete horas da noite, quando o motorista do fazendeiro parou no posto de fiscalização, improvisado pela Receita.

--- Boa noite... disse um dos fiscais com uma lanterna na mão, com a qual fazia sinal para que os veículos parassem.

--- Boa noite... respondeu ele de dentro da sua condução.

--- Somos fiscais do governo, e precisamos inspecionar seu veículo. O que o senhor está transportando? Perguntou novamente um dos fiscais.

--- Um defunto... respondeu o fazendeiro, antes de seu motorista.

--- Um defunto ? como assim?... agora de noite?.... quis saber a fiscalização.

--- É... é de pessoa  simples..., mas como na roça as coisas são mais difíceis, e a única condução que tem por aqui é a minha camioneta... como eu não tive tempo de dia, tenho que fazer isso à noite... mas está ai em cima pode olhar se quiser...

Enquanto um dos fiscais ficou conversando com o fazendeiro, o outro se incumbiu de dar uma olhada na carga. Este então, subiu na carroceria e agitando sua lanterna por cima das flores que rodeavam o caixão, gritou.
--- Tudo bem...

--- Olhou dentro do caixão? Perguntou o outro que tinha ficado em baixo.

--- Mas... precisa? Tornou o que estava em cima.

--- Lógico... respondeu o outro.

O fiscal então meio trêmulo, levantou a tampa do caixão e jogando o foco dentro, deu uma rápida olhada  fechando-o novamente. E pulando de cima, disse para o outro.

--- Pode deixa-lo ir.
Este então fazendo sinal com a mão disse.
--- Tudo bem... pode seguir.  Vai com Deus.

A camioneta se arrancou e foi embora.
Os guardas então voltaram pra dentro do carro  e depois de uns minutos de silêncio, o que tinha ficado conversando com o fazendeiro disse.

--- O que aconteceu?... parece que você está assustado por ter visto um defunto?

--- Não sei não viu... não sei se é porque estamos aqui o tempo todo procurando encontrar porco abatido... parece que a gente vai ficando sugestionado.

--- Mas porque você diz isto? Quis saber o outro.

--- Aquele defunto... você pode não acreditar,  mas eu vi nele a cara de um porco...






Uma Fábula Fabulosa

Vamos Contá Causos...



                                Uma Fábula Fabulosa



                  Todos conhecem a fábula de La Fontaine, cujo tema versa sobre: o trabalho, representado pela valorosa formiga e a preguiça,  pela alegre  cigarra.
                   O que vou escrever abaixo, não visa diminuir em nada a grandeza desta maravilhosa obra. Mas sim, ressaltar o poder  criativo do povo brasileiro, na arte de manipular valores de maneira alegre e extrovertida.
                   Feito este pedido de desculpas ao mundo e em particular ao povo francês, inicio então a  narrativa  desta fábula adaptada.
                   Num dia de sol muito claro e ondas de forte calor, estava num banco de uma praça, uma cigarra a cantar insistentemente. Perto deste banco, transitava uma laboriosa formiga, transportando em seus ombros, folhas, alimentos, pedaços de caules secos das plantas, sempre no sentido de sua casa, e pedras e torrões de terra, em seu trajeto de volta, visava com isso, limpar e ou, aumentar seu habitat. Numa dessas muitas idas e vindas da formiga, ela parou perto da cigarra, e interrompendo seu canto, advertiu-a.
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--- Cigarra, cigarra... para de cantar e trabalhe um pouco...  porque a hora que o inverno chegar, você vai passar maus pedaços.
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--- Que nada... você preocupa muito formiga, a vida não é só trabalho não... é lazer também.
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                  A formiga vendo que falar com ela, era como “malhar em ferro frio”, continuou seu trabalho e deixou a cigarra espantar seus males, através do canto.
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                  Passou-se os anos, a formiga como todo ser vivente, trabalhou seus trinta e cinco anos, e conseguiu a glória de se aposentar pelo o INSS. E um dia, sentindo os problemas comuns a quem trabalhou a vida toda, praticando grandes esforços físicos, começou a ter problemas de artrose, artrite e desvio de coluna. Como sua pensão era pequena, procurava viver uma vida regrada, evitando de toda forma gastar seu dinheirinho sempre que podia. E justamente neste dia, estando muito atacada por fortes dores em virtude de suas doenças crônicas, com muita dificuldade foi para a praça onde permaneceu na calçada, à espera de um lotação que a levasse até próximo a um posto do INPS, onde pretendia tirar uma ficha para uma futura consulta médica. Estava então ela encostada no poste que sustentava a placa, que por sua vez anunciava o ponto do lotação, quando passou uma Ferrari vermelha do tipo  conversível, com sua capota recolhida.
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                Adivinha quem estava dirigindo? Exatamente, você acertou. A cigarra. A mesma cigarra de anos atrás.
                Ao passar com seu carrão pelo ponto de ônibus, ela reconheceu a laboriosa formiga  que ali estava esperando o 1017, que fazia a linha que passava perto do posto do INPS.
                  Não se contendo, deu aquela freada brusca fazendo cantar os pneus, e recuou até onde estava sua velha amiga. Descendo então do carro foi dar um abraço na velha guerreira. Mas não pôde. Em virtude do estado dolorido da amiga, se limitaram a um leve aperto de mãos. E sorridente a cigarra falou.
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--- Mas que surpresa agradável, te rever  minha amiga, como você está?
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--- Esse caquinho aí... mas você parece que está muito bem... cabelos grandes... roupa bonita... aquele carrão...
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--- Pois é, você se lembra daquele dia em que nós nos falamos ali na praça..., pois é... depois que você foi embora, me apareceu um francês caçador de talentos, e agradando da minha voz...  me fez uma proposta irrecusável.   Levou-me para a França... lá eu gravei um monte de CDs... comprei uma linda casa na Avenue Champs-Élysées... comprei outra aqui em são Paulo e um apartamento na praia... já tenho três carros importados e já estou de volta  para lá de novo. Vou agora pegar o avião.
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--- Ah!... você então está indo para lá?... Agora?
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--- Sim, porque  deseja alguma coisa?
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--- Sim... se por acaso você encontrar por lá um tal de La Fontaine, você me faz um favor... vê se manda ele pra (!)... mas não esquece não, por favor.



O Camponês “burro”

Vamos Contá Causos...



O Camponês  “burro”




                Certa vez, numa pequena chácara à beira de uma rodovia, “seu” Moacir, o proprietário, acabando de almoçar, saiu para fazer a sesta à sombra de uma velha e frondosa mangueira.
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                Ali naquele lugar calmo e tranquilo, aproveitando o tronco forte da árvore, mantinha uma rede esticada, atracada num moerão que para isso tinha ali aprumado. E assim como todo dia neste horário, deitava nesta rede e ficava a contemplar  o verde da  sua pequena plantação de hortaliças, legumes, milho, feijão e algumas frutas.
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           Sua área era realmente pequena, mas totalmente plantada, com exceção apenas de um trecho, no qual havia construído um pequeno lago, onde criava alguns peixes para sua própria subsistência. Estava então ele ali deitado, apenas esperando seu cigarrinho acabar de queimar, para dar sua costumeira cochilada.
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      Coincidentemente, estava chegando naquelas paragens dois empresários, que viajando em uma limusine, vinham discutindo seus rentáveis negócios.
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            Ao passarem perto da propriedade de “seu” Moacir, um deles, notando o capricho da  plantação e a presença do dono preguiçosamente estirado naquela rede, imediatamente mandou seu motorista parar, e comentou com seu colega de viajem.
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--- Veja bem.... ali naquela rede está um homem de muito valor. Apenas lhe falta alguém que o oriente para se prosperar na vida. Vamos descer e falar com ele, pois isto até é um ato de caridade que podemos fazer.
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            E fazendo assim, desceram do carro e passando por entre o arame farpado da cerca, chegaram perto do camponês que a esta altura já estava começando a pegar no sono. Bateram palmas e estas então o acordaram. E sentando-se então atravessado na rede, de frente para os estranhos, perguntou:
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--- Quê que voismecês deseja?
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--- Estamos aqui admirando a sua plantação. - Disse o empresário, que havia se impressionado ao mesmo tempo que se aproximava do agricultor.
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--- Hummm!!!..., fez ele.
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--- Escuta aqui... esta terra é do senhor? Perguntou o empresario mais afoito.
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--- É, uai...
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--- O senhor é quem cuida de tudo? Tornou a indagar
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--- Sim... uai?
--- Pois então...   posso lhe dar um conselho?
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--- Se o sinhô quizé... pode falá. Respondeu o matuto.
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--- Olha, disse o entusiasta, porque o senhor não colhe estes produtos que já estão no ponto de ser comercializados,  em vez de ficar aí deitado.
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--- Mais pra quê eu vou coiê agora?... se eu já armocei agorinha memo?.
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--- Não... o senhor não está me entendendo... o que eu quero dizer é que uma vez colhido, o senhor vai até a cidade e os vende... e fazendo isto sistematicamente, em pouco tempo terá o dinheiro suficiente para comprar estas terras aí do lado...
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--- Mais pra quê  que eu vou querê mais terra?
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--- Veja bem... comprando esta terra aí do lado, que é apenas pasto e portanto tem preço baixo, sua área de plantio ficará bem maior. E consequentemente seu faturamento irá aumentar tanto, que isto lhe proporcionará condição de comprar uma camioneta.
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--- Mais moço... pra quê que vou querê isso?
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            Com esta pergunta, o entusiasta olhou para o colega e falou baixinho, se referindo ao campônio:
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--- É um asno mesmo... mas já que cheguei até aqui, agora  vou até ao fim. E voltando ao diálogo, continuou expondo seu raciocínio. ...com esta camioneta, o senhor poderá levar toda a colheita para o mercado sem pagar frete a ninguém. E esta pequena economia em pouco tempo, lhe proporcionará a oportunidade de comprar uma fazenda bem maior.
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--- Mais pra quê eu vou querê uma fazenda mais grande?
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--- Raciocina homem... tornou o “economista” e continuou... Com uma fazenda maior o senhor vai produzir tanto, que logo terá de contratar muitos empregados... aí então... o senhor começará a exportar alimentos para o mundo... vai ganhar tanto dinheiro, que não vai nem saber o que fazer para gastá-lo.
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--- Mais moço... pra quê eu vou querê tanto dinheiro assim?
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--- Olha aqui seu burro. Disse o empresário já perdendo a paciência com tanta ignorância. ... este dinheirão, que o senhor poderá ganhar, vai lhe proporcionar vários meses de férias... em qualquer lugar... como você é mesmo da roça, poderá então ir para o campo sossegado, viver uma vida pescando... deitado numa rede... sem se preocupar com os rumos da vida... quer coisa melhor que isso?
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--- Então voismecê acha que eu devo fazê isso tudo, pra despois vortar  e ficá  no qui já tô?
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--- Vamos embora, disse o outro que tinha ouvido toda a conversa. ...acho que nós é que somos os únicos asnos  por aqui.