sexta-feira, 15 de julho de 2016

Como explicar...



Em Vamo Comtá Cauzo???






Como explicar?...




“Dr. Bráulio”, era desta forma que o engenheiro chefe de  um setor da antiga RFFSA, exigia que fosse tratado por seus subordinados. Morando numa cidade pequena do interior de Minas Gerais, era como se fosse uma autoridade civil para aquela população daquele lugarejo. Com seus quase cinquenta anos, era muito respeitado pela comunidade inteira, uma vez que quase todos os habitantes eram na verdade ferroviários. Tanto era temido pelos moradores, que muitas vezes era chamado para intervir em querelas, como se fosse um delegado ou coisa parecida.

Dr. Bráulio morava numa casa existente dentro do pátio da própria Ferrovia, que fora construída para esta finalidade, servir de residência para o chefe do setor. Esta casa de estilo inglês, construída nos primórdios da implantação da oficina naquele distrito,  por ter bem mais do que os cinquenta anos de seu morador, já há bastante tempo estava merecendo a atenção dele para uma reforma tida por inteiro. Mas o austero engenheiro, sempre adiava esta tão solicitada reforma que o casarão pedia, junto com o endosso de Dona Olívia, sua paciente esposa.

Conta-se que no quarto onde o nobre casal dormia, tinha um armário enorme, feito com grossas  madeiras de lei e  pesadas portas sustentadas por exageradas dobradiças de ferro, comprovando a facilidade com que eram construídas estas casas, na época em que foram arquitetadas. Tempo este em que, como diz os mais antigos, “amarrava-se cachorro com linguiça”. E vencido pelo tempo e as constantes trepidações do terreno, quase todas as noites quando passava um trem, uma das portas despencava de sua dobradiça e acordava-os de sobressalto.

--- Diacho... esta porcaria só cai de noite. Falava ele após acordar, e puxando o cobertor, virava para a beira da cama e roncava de novo.
--- É... você sempre diz isto... mas providencias mesmo que é bom, você nunca toma. Repetia também a frase de todas as noites, sua “inigualável” esposa.

Mas tantas vezes aconteceu desta porta cair, que numa bela manhã, Dona Olívia conseguiu obter dele o consentimento para  mandar o carpinteiro da sua turma de trabalho, fazer no dia de hoje, pelo menos um rápido conserto, afim de evitar a continuação do desastrado e inconveniente despencamento noturno.

O dia estava passando e nada do carpinteiro chegar. Dona Olívia, com medo de que seu marido tivesse esquecido ou mudado de ideia, mandou recado por um funcionário que passava no pátio perto de sua casa, para o encarregado da oficina, dizendo necessitar do trabalho de um carpinteiro.




Não levou muito tempo, e o carpinteiro chegou. Era o terrível Amâncio. Excelente profissional, mas com uma fama de cínico, safado e sem vergonha por conta de seus encontros furtivos, com algumas esposas mal amadas da região. Talvez fosse até por isso, que o Dr. Bráulio não tomava a decisão de mandá-lo fazer o conserto, temendo não poder estar em casa por aquela hora, e com isso, iniciar boatos inconvenientes sobre sua vida conjugal.

Coitado do Amâncio, sabedor de sua fama ele até que procurava evitar situações que pudesse colocar dúvidas em suas atitudes. Mas, ordem é ordem, e não podendo contesta-la, para lá se dirigiu afim de consertar o tal armário encrencado.

Muito competente, desmontou as dobradiças e montou-as novamente no armário, terminando logo a operação. Quando se preparava para ir embora, enquanto juntava suas ferramentas, passou o trem de minério das três horas, e a porta inexplicavelmente caiu outra vez. Dona Olívia, orientada pelo barulho, correu logo ao quarto, e encontrou o Amâncio quase sem fala, pois por pouco a porta não o acidentou.

--- Que foi seu Amâncio?... machucou? Perguntou a atenciosa mulher.
--- È... porta peralta, Dona Olívia... A senhora acredita que eu desmontei ela todinha e tornei  montá, e o danado do defeito num saiu... agora só tem um jeito de discobri este tipo de defeito... eu vou ficá dentro do armário com ele fechado, pruquê tá na hora de passá o “cargueiro” das trêis e quinze. E por dentro, a gente tem jeito de vê o que acontece com a danada da dorbradiça, quando começa a trepidação.

--- Pois não, seu Amâncio... fique a vontade, já que o senhor felizmente não se machucou, eu vou então continuar lavando minhas roupas lá no tanque.

Amâncio então assim  fez, ajeitou para um lado as roupas do Dr. Bráulio, e entrando no armário fechou a porta e ficou a espera do próximo trem, que não demoraria muito a passar.

Dr. Bráulio, que normalmente chegava em casa todo dia, depois das quatro e meia, hoje chegou mais cedo porque tinha que ir á rua fazer as compras do mês, e era sempre ele que as fazia. Pois muito machista, não dava esta liberdade para a sua esposa. Quando muito, ela ia junto com ele. E entrando pela cozinha, não vendo sua esposa na área ao lado,  “ralando a barriga” num tanque cheio de roupas sujas, foi direto ao seu quarto trocar a roupa de trabalho. E abrindo a porta do armário, já sem a camisa, disse meio sem graça.
--- Amâncio?!?!... Oliviiiiaaa... que signifiiica issooo?
Amâncio, que estava sentado dentro do armário, notando o espanto do chefe, e lembrando da sua fama, disse em meio a um sorriso irônico.
--- Se eu falá que tô esperando o trem passá, o senhor vai querditá?...





terça-feira, 5 de julho de 2016

Criança diz cada uma...



Em vamo contá causos...


Criança diz cada uma...


Walter, trabalhava numa fábrica de laticínios, no interior do estado. Davi, apesar de ser  funcionário lotado em seu departamento, também era seu melhor amigo e confidente. Toda tarde, os dois saíam juntos e passavam em um bar para tomar uma cervejinha, antes de ir para casa.

Walter andava muito chateado com o nascimento de seu primeiro filho, pois o pobre menino nascera sem as duas orelhas. Tanto que, principalmente depois do nascimento, Walter passou a ficar mais tempo no bar bebendo, deixando transparecer claramente, sua insatisfação de ir para casa e conviver com aquele triste quadro.

 Davi, por sua vez, já sabia que o filho do seu melhor amigo, nascera com esta deficiência, e durante todo tempo destas tardes prolongadas, procurava escutar com paciência o desabafo do amigo.

--- Eu não tenho nem vontade de chegar em casa... a gente faz tantos planos... e depois... vem a decepção...

--- Quê que é isso cara?... a gente não pode deixar se abater assim não... existe casos piores... pelo menos  no resto ele tem saúde..., disse o Davi.

--- Ah!... mas é duro... e depois, toda visita que chega lá em casa vai logo perguntando pelas orelhas dele... eu já não aguento mais, e minha mulher também... depois que a visita sai, ela chora tanto que dá até pena...

--- Então?... tá vendo só?... você procura fuga no bar... e sua mulher, cara? Ela enfrenta o problema o dia inteiro, e não tem como fugir... ela fica à sua espera, doida para que você chegue e divida com ela esta dor... é aí que a gente tem que mostrar que é forte.

--- Que nada... ela é muito mais forte que eu... neste ponto ela até que me alivia bastante, porque mantém no neném um boné de aviador, de modo que esconde aqueles dois orifícios...

--- Pois é... e eu até estou em falta com vocês... mas como você mesmo disse, numa situação como esta, visitas sempre chateia...

--- Mas espera aí, eu falei de visitas chatas... mas não me referi à sua família, vocês pelo contrário, me dão muito prazer tanto que eu até  falei com a Cleide que vocês ainda não tinham aparecido...

--- Eu vou ver com a patroa... conforme for neste fim de semana a gente deve aparecer por lá...

Acontece, que o problema do Davi não era falta de tempo não, e sim o seu próprio filho. O moleque era muito peralta e extrovertido demais para a idade que tinha, seis aninhos só. E Davi, por sua vez, tinha medo que o garoto fizesse algum comentário sobre as orelhas do neném. E se isso acontecesse, ele e sua esposa iam ficar em verdadeiro “papo de aranha”. Mas por outro lado, não podia mais protelar a visita, pois já estava ficando estranho sua situação junto ao seu amigo. Destarte, chamou seu filho Diego para uma conversa bem particular, onde esclareceu a ele a situação em que estavam vivendo seus amigos. Fez saber a ele, que neste próximo fim de semana, eles iriam então fazer esta visita, e que ele estava terminantemente  proibido de perguntar pelas orelhas do garoto.

No sábado então foram os três para casa do Walter, afim de cumprirem com seus deveres e obrigações de amigos. Walter e Cleide, os receberam muito bem, e sentando-os nos sofás da sala, ficaram os dois conversando sobre futebol, enquanto as duas mulheres conversavam sobre os problemas de amamentação, e os rotineiros problemas do pós-parto.

Diego, o filho do Davi, até que estava se comportando muito bem,  ficava em pé em volta do carrinho onde o neném dormia com aquele boné de aviador. Não perguntava nada, mas no fundo daria tudo para enfiar os dedos, debaixo daquela proteção do boné, para pelo menos sentir como era a situação do garotinho.

 Mas, como diz a máxima “defunto muito encomendado, não chega no céu”, em dado momento Diego falou para o pai do neném.
--- Sabe tio?... seu filho tem uns olhos muito bonitos.

--- Ah! é Diego... você acha-os bonitos. Disse o Walter dando atenção ao moleque.

--- É... e eu estive pensando... eu vou rezar muito para que Deus dê a ele uma visão muito boa.

--- Ah! que bonito... disse a Cleide se intrometendo na conversa dos dois.  ...então você vai rezar pro meu neném?... como você é bonzinho... mas porque esta preocupação com os olhos  dele?

--- A senhora já pensou se ele precisar usar óculos?...