quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O Ladrão de Leite.

Em Vamo Contá Causos...






                            O Ladrão de Leite




Todos nós, empregados da Companhia Industrial Santa Matilde, tínhamos direito a um copo de leite por dia. Quem não gostava de leite, cedia sua ficha a outros empregados,  que juntando-as, no final do dia acabavam levando um ou dois litros de leite para casa.
Mas assim como tinha os que não gostavam, tinha também os que gostavam demais, isto é, aqueles que além de tomar o seu,  ainda roubava o de outra pessoa.
Na seção onde trabalhei acontecia muito este caso. Havia lá um rapaz, que como num ritual religioso, ao receber seu copo de leite pela manhã, temperava-o com um pouco de sal, mexendo-o com uma colher e o guardava na geladeira da seção, pronto para saboreá-lo na volta do almoço. Pois nesta hora, principalmente durante o verão, chegava cansado e suando muito por causa do calor dos ônibus.
Só que o coitado, raríssimas vezes conseguiu seu intento de se refrescar com seu delicioso leite. Isto porque infelizmente, dentro desta nossa turma de colegas, existia um exemplar destes que gostavam demais de leite. O malandro não tomava o leite todo não, bebia só a metade do copo e em seu lugar acrescentava água, tentando assim encobrir seu ato desleal.
O dono do leite por sua vez, ao chegar na seção depois do almoço, pegava seu copo e no primeiro gole notava a diferença no paladar e reclamava.
--- Mexeram no meu leite outra vez... ele está aguado.
Isto aconteceu uma centena de vezes, até o dia que o Jair, que era o encarregado da seção, resolveu por um fim naquela situação desagradável. E para isto ele bolou um plano bastante punitivo para o sem vergonha.
Assim num determinado dia lá, ele chamou o rapaz e falou com ele.
--- Esta situação não pode continuar mais, pois está ficando até chato pra todos nós. De forma que já que você na maioria das vezes fica mesmo sem o leite, não custa nada você ficar sem ele por mais uns dias.
--- Como assim “seu” Jair?, perguntou o rapaz.
--- Simples... eu vou te dar um bocado de “Sal de Glaubert”, para você por no leite e continuar deixando-o na geladeira..
--- Sal... o quê? Quê é isso? Indagou novamente o garoto.
--- É purgante... basta um pouquinho e ele desanda o intestino de quem toma. Repito, eu vou te dar um pouco e você coloca no leite como se fosse sal, mas vê se põe pelo menos uma colher cheia, mas sem fazer alarde nenhum, fazendo da maneira que você faz todo dia, e deixa-o na geladeira. Se o ladrão tomar, pode crer, nós vamos ficar sabendo quem é ele.
E assim fizeram. O purgante foi misturado ao leite e colocado no copo, enchendo-o até  ficar rente à linha do friso que fica logo abaixo da borda, e ficou na geladeira a espera do larápio.
Lá pelas duas horas da tarde o Antônio levantou de seu tamborete, e foi ao banheiro. Quinze minutos depois, já estava de volta e começou a trabalhar novamente. Não passou nem meia hora, e ele voltou ao banheiro novamente. Nesta altura o Jair que no fundo já suspeitava dele,   e rindo muito, contou para os demais e todos então ficaram observando  as manobras do Antônio.
Passou-se mais uns quinze minutos e ele chegou de volta  na seção. Abriu a porta, mas não entrou ficou ali parado olhando fixo para a parede de frente e passando a mão de leve e em círculos na barriga. De repente largando a porta aberta, saiu correndo para o banheiro. E a turma que gostava do mal-feito, quase deitava no chão para rir. E por lá ele ficou o resto da tarde só voltando quase na hora da saída.
Antes de saírem da seção, o rapaz foi até a geladeira e pegando seu copo, mesmo sabendo que ele tinha sido completado com água, porque seu conteúdo estava fora da marca que havia feito, falou:
--- É... o ladrão de leite hoje deu sorte... porque eu coloquei purgante no  leite...  se ele toma não ia sair do banheiro hoje...
Quando ele falou isto foi uma festa, pois todos aproveitaram para rir, com exceção do Antônio este não, agiu como se não tivesse escutado. Mas o certo é que daquele dia em diante, nunca mais mexeram no leite do rapaz.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Simplicidade...

Em Vamo Contá Causos...

                                


                                          Simplicidade




Este fato aconteceu no final dos anos sessenta. Estava eu e mais três amigos nos preparando para prestar exames para a Força Aérea Brasileira.  Estas provas aconteciam anualmente numa mesma data e hora, em todo o pais. Cada candidato se apresentava no local mais próximo de sua cidade, e como éramos de Conselheiro Lafaiete, fomos presta-las em Belo horizonte.
Tínhamos em média 17 anos e ainda sem um emprego definido, por isso ficávamos totalmente às expensas de nossos pais. E como todos nós vínhamos oriundos de proles grandes, procurávamos resolver nossos problemas, sem nos tornarmos mais um peso dentro daquele orçamento familiar a que pertencíamos. De forma tal que, fomos para a capital mineira levando nos bolsos apenas o dinheiro necessário para a despesa com uma refeição diária, e esta, não podia passar nunca do equivalente a um “prato feito” servido em restaurante de segunda ou terceira categoria.
 Esta análise que estou fazendo, hoje tem sentido porque nos meus cinquenta e um anos de idade, a vida me proporcionou gozar de situações de excessivo conforto, tais como hotéis cinco estrelas ou restaurantes de luxo. Mas na época em que aquela situação acontecia, nenhum de nós tínhamos qualquer experiência neste sentido, e como tal, comer um “PF” era a coisa mais natural do mundo.
Ficamos hospedado na Base Aérea isto é, podíamos dormir e tomar um café reforçado pela manhã. O resto do dia era problema nosso tapear o estômago. As provas foram prestadas no Estádio Mineirão que todos conhecem, e começando por volta de 8 horas iam até  ao meio dia, durante os quatro dias de duração.
Do lado de fora do Estádio nos reuníamos novamente e saíamos comentando as questões dadas no exame, retornando para o alojamento da Base, afim de continuar estudando para a prova do dia seguinte. E neste caminho de volta, aproveitávamos e passávamos em um restaurante simplesinho, onde um “PF” custava  só Cr$ 2,50 e almoçávamos. Logo depois então, completávamos  nosso retorno, passando ao lado do aeroporto da Pampulha, para entrar novamente na Base Aérea. Porém toda vez que passávamos pelo o aeroporto, um de nós comentava que podíamos muito bem comer no restaurante do Aeroporto, pois o “PF” de lá não poderia ser muito mais caro que nos bares da redondeza, afinal “PF” é “PF” em qualquer lugar. Apesar do desejo de todos nós em comer naquele restaurante “chic”, a ideia não conseguia unanimidade, pois o preço era uma incógnita. Mas, “água mole em pedra dura, tanto bate que até fura”, ficou decidido que no último dia, então jantaríamos no famoso restaurante da Pampulha.
E assim fizemos, ás dezenove horas em ponto daquela quinta-feira, depois de passear um pouco pelas redondezas do aeroporto, entramos então para saciar duplamente nossos desejos, ou seja, nossa fome e nossa curiosidade.
Procuramos então uma mesa mais no meio do salão, e sentamo-nos. Não demorou muito e um garçom muito educado, pedindo licença, nos entregou o cardápio. Antes mesmo que ele se retirasse para nos dar um breve tempo para a escolha dos pratos, o Edem ( hoje é ortodontista) interrompeu sua retirada, lhe dizendo.

--- Escuta aqui meu amigo... não precisamos de cardápio não... você vê pra nós quatro “PFs”.

--- Hã?... disse o garçom, e completou com um sorriso meio lacônico... “PF”?...  quatro “PFs”?... vendo então que todos balançavam a cabeça concordando, ele concertou o sorriso e disse.. hã... sim, sim... pois não.

Ali ficamos mais ou menos por uma hora batendo papo e observando as pessoas que ali entravam para jantar. Os homens normalmente usando ternos e as mulheres com aqueles vestidos longos, algumas até usavam luvas compridas que iam até o meio do antebraço.

E o “PF” nada de chegar, já estávamos quase reclamando com o garçom pela dura demora, quando aproximou de nós um garçom mais velho e mais respeitoso que o anterior, era o Maitre. Este com toda a “delicadeza do mundo” nos falou.

--- Boa noite... perdão cavalheiros... o nosso cozinheiro se atrapalhou com os pedidos, e preparou para vocês uma saladinha de tomate no capricho, um arroz á grega, um purêzinho de batata e um  bife de contra-filé que está uma delícia...
--- Mas chefe... acontece que o nosso dinheiro só dá pra um “PF”? disse o Fernando( este, passou nas provas e hoje é Tenente da Aeronáutica) e eu endossei suas palavras...
--- Mas... meus senhores... longe mim querer explorar vocês... O que estou propondo, fica por conta do preço do “prato feito”, e junto do nosso pedido de desculpas, pelo erro do desastrado cozinheiro... nem um centavo a mais...
--- Se é assim... eu não tenho nada contra, disse o Edem.
--- Nem eu, respondi
--- Nem nós, responderam os dois Fernandos.

E assim então comemos aquela refeição, e fomos para Base Aérea dormir nossa última noite em Belo Horizonte.


Só depois de muitos anos, é que contando este caso para alguém, eu entendi o procedimento do Maitre. Pois como o restaurante era de luxo, ele não querendo denegrir seu nome servindo “PFs”, usou de extrema fineza e nos convenceu a trocar o pedido, e o que é mais importante, fez isso sem nos humilhar. Nota dez pra você Maitre.




quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Um Triste Engano...

Em Vamo Contá Causos..





Um triste engano...




Eu devia estar com mais ou menos uns quinze ou dezesseis anos, quando este fato aconteceu. Por essa época, eu era estudante da Escola Profissional Eugênio Feio, onde tinha grandes amizades. Essa fase da minha vida ficou marcada pela sinceridade e união que existia entre nós os alunos deste educandário.
 Para exemplificar melhor o que eu quero dizer, eu cito um colega que chegou transferido de uma outra cidade, com o ano letivo já em andamento. Metido a gozador, já no segundo dia de sua estadia entre nós, ele  armou uma brincadeira na sala com meu nome, e todos riram. Apesar de não me lembrar mais o que ele tinha feito, mas me lembro perfeitamente da reação que tive. Falei pra ele que não sabia porque, mas eu não ia com a cara dele. E ele rindo, me respondeu. Também não sei porque, mas eu também não vou com a sua. E no entanto, fomos grandes amigos e formamos juntos.

Ele, morava num bairro chamado Fonte grande, e fora da escola, sua turminha era uns garotos do próprio bairro. Eu não, residia no bairro do Rosário, e minha turma era formada por garotos do bairro São sebastião, local onde eu fora criado.

José Lúcio e seus amigos, saiam todas as noites e só “aprontavam” pela rua. Eu também saia, mas não com a frequência dele. Muitas vezes, preferia ficar em casa estudando, principalmente quando aproximava o período das provas mensais.

 Ele e sua turma, andavam por toda a cidade, e numa determinada fase deste tempo, ele junto com seus amigos, começaram a frequentar durante às noites, a parte baixa da cidade. E para isso, eles passavam em frente à minha casa, pois era o caminho mais curto para chegar onde queriam. Muito bagunceiros, quando passavam em frente à minha residência, José Lúcio gritava o meu nome de guerra da escola que era “Batista”. A princípio ele gritava sozinho, mas depois seus colegas começaram a gritar juntos fazendo um coro só. 
Bom, quando eu estava em casa e ouvia, saía à varanda e respondia a brincadeira acenando pra eles, mas na maioria das vezes que isto aconteceu, eu não estava presente.
Um belo dia, na hora do recreio José Lúcio, “o vidraceiro”, apelido que tínhamos dado a ele por que usava óculos, chegou perto de mim, rindo muito e bastante vermelho, disse.

--- Ah! Batista... não te conto nada, cara... ontem quando estávamos em frente a sua casa, um “baita” de um cachorro policial fugiu do portão de uma casa perto da sua, e deu uma corrida em nós... eu nunca vi, cara... foi menino pra todo lado... uns desceram naquele mato que fica em frente sua casa e saíram na rua de baixo... outros desceram a sua rua numa disparada só... por pouco ele não pegou um de nós... acho que ele só não pegou, por que éramos  muitos e ele ficou meio sem saber a quem perseguir, cara...

--- Ah! “Zé Lúcio”..., vocês deram foi uma sorte danada..., porque aquele cachorro é muito bravo... ele é de um casal de velhos que mora na primeira casa acima da minha.

Rimos bastante e fizemos muitos comentários a respeito daquele acidente, mas foi no domingo seguinte pela manhã, que eu fiquei sabendo o que na verdade acontecera naquela noite. Eu estava ainda deitado, e já era mais de dez horas da manhã, em meu quarto, que ficava próximo à cozinha, onde a minha mãe conversava com a Dona Dedé, a vizinha que era a dona do cachorro. Ela era bem mais idosa que minha genitora, e com sua voz meio rouca, falava.

--- ... Dona Alaíde.... é uma corja de vagabundos... toda noite eu e o “Zé” ( este Zé, é o marido dela), sentamos naquele banco que temos na frente da casa... e de uns dias para cá, eles passam por nós conversando normalmente, quando chegam um pouquinho mais embaixo, começa a mexer com a gente nos chamando de crentes e todos gritam “batista”... batista... batista”, ah! dona Alaíde... a senhora sabe como o Zé é esquentado...  esta semana ele soltou o cachorro e por pouco ele não pegou um...



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Apenas um Mal Entendido

Em Vamo contá Causo...







Apenas um mal entendido




"Seu Mariano", era Agente de uma estação da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no tempo ainda das locomotivas a vapor. Muito simplório, havia galgado este posto agora no fim de sua carreira, mais pela dedicação e seriedade na profissão, do que mesmo pela sua competência. Pois havia cursado mal, mal, o curso primário e nele não fora nenhuma sumidade. Conversava pouco e escrevia menos ainda.

Esta estação, ficava no interior do Estado de Minas, numa cidade pequena, cujo nome agora me falha a memória. Perto dela funcionava uma oficina de reparos,  da via permanente, isto é da linha férrea (dos trilhos e seus dormentes).

Como este trabalho era muito penoso, pois seus funcionários tinham muitas vezes que carregar por distâncias longínquas, ferramentas de pesos consideráveis, tais como pás, picaretas, garfos, puas gigantes, parafusos, chaves de boca e etc., a EFCB havia adotado, e isso já fazia muitos anos, o uso de uma carroça puxada por um burro, os quais de propriedade da própria Estrada, para todo dia acompanhar estes trabalhadores até seus locais de trabalho.

“Malaquias”, era um burro bem tratado, e como sua função era apenas de transporte destes equipamentos somente na ida e na volta, passava descansando quase o dia inteiro. Em vista disso, envelhecera muito lentamente. Para um asno que no máximo vive trinta anos, “Malaquias”, já tinha batido este recorde há muito tempo. Pois fora admitido no quadro desta ferrovia,  antes do velho Mariano, o atual agente da estação, sequer pudesse pensar em algum dia pertencê-lo. 

“Malaquias”, viu muita gente aposentar. E era tão querido por eles, que muitos destes aposentados quando encontrava-o pela rua, faziam carinho na sua cara, que ele agradecia qual um cachorrinho abanando a cauda. 

Mas como tudo na vida tem um fim, chegou o dia de Malaquias partir para o “estábulo celeste”. E numa tarde, puxando sua velha carroça de volta para a oficina de reparos, caiu de joelhos primeiro, para depois esticar suas pernas num ultimo ato derradeiro e definitivo. Todos os empregados correram para socorrê-lo, mas nada havia para se fazer. Pode parecer inacreditável, mas foi uma comoção geral entre aqueles funcionários presentes, houve até quem chorasse.

Um dos empregados foi até a estação para avisar “seu Mariano”, sobre o acontecido e solicitar dele, alguma providencia. O velho então chorou copiosamente, ao ser comunicado e ficou a se  lembrar dos tempos em que também trabalhou na turma de reparos, e portanto, do tempo que conviveu com ele. 

Mas, como agente daquela estação era o funcionário mais graduado abaixo do engenheiro chefe residente. E como tal, tinha que tomar mesmo alguma decisão sobre o assunto. E com os olhos encharcados pelas lágrimas que vertiam, escreveu o seguinte bilhete para o citado engenheiro:

“ Dotô:
 O burro morreu e a carroça tá parada. Eu mando comprá ôtro, ou espero o sinhô  pra substituí ele”.


                                                    Agente Mariano





sexta-feira, 15 de julho de 2016

Como explicar...



Em Vamo Comtá Cauzo???






Como explicar?...




“Dr. Bráulio”, era desta forma que o engenheiro chefe de  um setor da antiga RFFSA, exigia que fosse tratado por seus subordinados. Morando numa cidade pequena do interior de Minas Gerais, era como se fosse uma autoridade civil para aquela população daquele lugarejo. Com seus quase cinquenta anos, era muito respeitado pela comunidade inteira, uma vez que quase todos os habitantes eram na verdade ferroviários. Tanto era temido pelos moradores, que muitas vezes era chamado para intervir em querelas, como se fosse um delegado ou coisa parecida.

Dr. Bráulio morava numa casa existente dentro do pátio da própria Ferrovia, que fora construída para esta finalidade, servir de residência para o chefe do setor. Esta casa de estilo inglês, construída nos primórdios da implantação da oficina naquele distrito,  por ter bem mais do que os cinquenta anos de seu morador, já há bastante tempo estava merecendo a atenção dele para uma reforma tida por inteiro. Mas o austero engenheiro, sempre adiava esta tão solicitada reforma que o casarão pedia, junto com o endosso de Dona Olívia, sua paciente esposa.

Conta-se que no quarto onde o nobre casal dormia, tinha um armário enorme, feito com grossas  madeiras de lei e  pesadas portas sustentadas por exageradas dobradiças de ferro, comprovando a facilidade com que eram construídas estas casas, na época em que foram arquitetadas. Tempo este em que, como diz os mais antigos, “amarrava-se cachorro com linguiça”. E vencido pelo tempo e as constantes trepidações do terreno, quase todas as noites quando passava um trem, uma das portas despencava de sua dobradiça e acordava-os de sobressalto.

--- Diacho... esta porcaria só cai de noite. Falava ele após acordar, e puxando o cobertor, virava para a beira da cama e roncava de novo.
--- É... você sempre diz isto... mas providencias mesmo que é bom, você nunca toma. Repetia também a frase de todas as noites, sua “inigualável” esposa.

Mas tantas vezes aconteceu desta porta cair, que numa bela manhã, Dona Olívia conseguiu obter dele o consentimento para  mandar o carpinteiro da sua turma de trabalho, fazer no dia de hoje, pelo menos um rápido conserto, afim de evitar a continuação do desastrado e inconveniente despencamento noturno.

O dia estava passando e nada do carpinteiro chegar. Dona Olívia, com medo de que seu marido tivesse esquecido ou mudado de ideia, mandou recado por um funcionário que passava no pátio perto de sua casa, para o encarregado da oficina, dizendo necessitar do trabalho de um carpinteiro.




Não levou muito tempo, e o carpinteiro chegou. Era o terrível Amâncio. Excelente profissional, mas com uma fama de cínico, safado e sem vergonha por conta de seus encontros furtivos, com algumas esposas mal amadas da região. Talvez fosse até por isso, que o Dr. Bráulio não tomava a decisão de mandá-lo fazer o conserto, temendo não poder estar em casa por aquela hora, e com isso, iniciar boatos inconvenientes sobre sua vida conjugal.

Coitado do Amâncio, sabedor de sua fama ele até que procurava evitar situações que pudesse colocar dúvidas em suas atitudes. Mas, ordem é ordem, e não podendo contesta-la, para lá se dirigiu afim de consertar o tal armário encrencado.

Muito competente, desmontou as dobradiças e montou-as novamente no armário, terminando logo a operação. Quando se preparava para ir embora, enquanto juntava suas ferramentas, passou o trem de minério das três horas, e a porta inexplicavelmente caiu outra vez. Dona Olívia, orientada pelo barulho, correu logo ao quarto, e encontrou o Amâncio quase sem fala, pois por pouco a porta não o acidentou.

--- Que foi seu Amâncio?... machucou? Perguntou a atenciosa mulher.
--- È... porta peralta, Dona Olívia... A senhora acredita que eu desmontei ela todinha e tornei  montá, e o danado do defeito num saiu... agora só tem um jeito de discobri este tipo de defeito... eu vou ficá dentro do armário com ele fechado, pruquê tá na hora de passá o “cargueiro” das trêis e quinze. E por dentro, a gente tem jeito de vê o que acontece com a danada da dorbradiça, quando começa a trepidação.

--- Pois não, seu Amâncio... fique a vontade, já que o senhor felizmente não se machucou, eu vou então continuar lavando minhas roupas lá no tanque.

Amâncio então assim  fez, ajeitou para um lado as roupas do Dr. Bráulio, e entrando no armário fechou a porta e ficou a espera do próximo trem, que não demoraria muito a passar.

Dr. Bráulio, que normalmente chegava em casa todo dia, depois das quatro e meia, hoje chegou mais cedo porque tinha que ir á rua fazer as compras do mês, e era sempre ele que as fazia. Pois muito machista, não dava esta liberdade para a sua esposa. Quando muito, ela ia junto com ele. E entrando pela cozinha, não vendo sua esposa na área ao lado,  “ralando a barriga” num tanque cheio de roupas sujas, foi direto ao seu quarto trocar a roupa de trabalho. E abrindo a porta do armário, já sem a camisa, disse meio sem graça.
--- Amâncio?!?!... Oliviiiiaaa... que signifiiica issooo?
Amâncio, que estava sentado dentro do armário, notando o espanto do chefe, e lembrando da sua fama, disse em meio a um sorriso irônico.
--- Se eu falá que tô esperando o trem passá, o senhor vai querditá?...





terça-feira, 5 de julho de 2016

Criança diz cada uma...



Em vamo contá causos...


Criança diz cada uma...


Walter, trabalhava numa fábrica de laticínios, no interior do estado. Davi, apesar de ser  funcionário lotado em seu departamento, também era seu melhor amigo e confidente. Toda tarde, os dois saíam juntos e passavam em um bar para tomar uma cervejinha, antes de ir para casa.

Walter andava muito chateado com o nascimento de seu primeiro filho, pois o pobre menino nascera sem as duas orelhas. Tanto que, principalmente depois do nascimento, Walter passou a ficar mais tempo no bar bebendo, deixando transparecer claramente, sua insatisfação de ir para casa e conviver com aquele triste quadro.

 Davi, por sua vez, já sabia que o filho do seu melhor amigo, nascera com esta deficiência, e durante todo tempo destas tardes prolongadas, procurava escutar com paciência o desabafo do amigo.

--- Eu não tenho nem vontade de chegar em casa... a gente faz tantos planos... e depois... vem a decepção...

--- Quê que é isso cara?... a gente não pode deixar se abater assim não... existe casos piores... pelo menos  no resto ele tem saúde..., disse o Davi.

--- Ah!... mas é duro... e depois, toda visita que chega lá em casa vai logo perguntando pelas orelhas dele... eu já não aguento mais, e minha mulher também... depois que a visita sai, ela chora tanto que dá até pena...

--- Então?... tá vendo só?... você procura fuga no bar... e sua mulher, cara? Ela enfrenta o problema o dia inteiro, e não tem como fugir... ela fica à sua espera, doida para que você chegue e divida com ela esta dor... é aí que a gente tem que mostrar que é forte.

--- Que nada... ela é muito mais forte que eu... neste ponto ela até que me alivia bastante, porque mantém no neném um boné de aviador, de modo que esconde aqueles dois orifícios...

--- Pois é... e eu até estou em falta com vocês... mas como você mesmo disse, numa situação como esta, visitas sempre chateia...

--- Mas espera aí, eu falei de visitas chatas... mas não me referi à sua família, vocês pelo contrário, me dão muito prazer tanto que eu até  falei com a Cleide que vocês ainda não tinham aparecido...

--- Eu vou ver com a patroa... conforme for neste fim de semana a gente deve aparecer por lá...

Acontece, que o problema do Davi não era falta de tempo não, e sim o seu próprio filho. O moleque era muito peralta e extrovertido demais para a idade que tinha, seis aninhos só. E Davi, por sua vez, tinha medo que o garoto fizesse algum comentário sobre as orelhas do neném. E se isso acontecesse, ele e sua esposa iam ficar em verdadeiro “papo de aranha”. Mas por outro lado, não podia mais protelar a visita, pois já estava ficando estranho sua situação junto ao seu amigo. Destarte, chamou seu filho Diego para uma conversa bem particular, onde esclareceu a ele a situação em que estavam vivendo seus amigos. Fez saber a ele, que neste próximo fim de semana, eles iriam então fazer esta visita, e que ele estava terminantemente  proibido de perguntar pelas orelhas do garoto.

No sábado então foram os três para casa do Walter, afim de cumprirem com seus deveres e obrigações de amigos. Walter e Cleide, os receberam muito bem, e sentando-os nos sofás da sala, ficaram os dois conversando sobre futebol, enquanto as duas mulheres conversavam sobre os problemas de amamentação, e os rotineiros problemas do pós-parto.

Diego, o filho do Davi, até que estava se comportando muito bem,  ficava em pé em volta do carrinho onde o neném dormia com aquele boné de aviador. Não perguntava nada, mas no fundo daria tudo para enfiar os dedos, debaixo daquela proteção do boné, para pelo menos sentir como era a situação do garotinho.

 Mas, como diz a máxima “defunto muito encomendado, não chega no céu”, em dado momento Diego falou para o pai do neném.
--- Sabe tio?... seu filho tem uns olhos muito bonitos.

--- Ah! é Diego... você acha-os bonitos. Disse o Walter dando atenção ao moleque.

--- É... e eu estive pensando... eu vou rezar muito para que Deus dê a ele uma visão muito boa.

--- Ah! que bonito... disse a Cleide se intrometendo na conversa dos dois.  ...então você vai rezar pro meu neném?... como você é bonzinho... mas porque esta preocupação com os olhos  dele?

--- A senhora já pensou se ele precisar usar óculos?...



quarta-feira, 29 de junho de 2016

As aparências enganam

             Vamos Contá Causos... 
                        



 As aparências enganam
   


                             Havia em um município, um fazendeiro muito ardiloso que procurava todos os meios para vencer na vida. Trabalhava muito, desde cedo até à noite. Podia se dizer que era uma pessoa muito digna e honesta por excelência. Pois em toda redondeza, não havia ninguém quem não o conhecesse e o recomendasse. Porém, como disse Saint-Exupéry: “nada é perfeito”, e confirmando esta máxima, este fazendeiro não gostava de pagar impostos. E para burlar a fiscalização do governo, ele fazia de tudo.                                                       Administrando esta fazenda com muito carinho, ele em uma estufa muito bem construída, cultivava plantas ornamentais e flores de todos os tipos, que com as quais, abastecia duas lojas de floricultura que possuía na cidade vizinha à sua fazenda. Do mesmo modo, mantinha uma manga de porcos em sua propriedade, e já os levava abatidos para seu açougue, que ficava também próximo  a estas duas floriculturas. Desta maneira produzia ele suas próprias mercadorias, e com as quais mantinham seu comércio em ritmo ascendente.
 Em virtude da sonegação, começou o governo a fiscalizar suas atividades. E em consequência disso, foi designado numa tarde de uma sexta feira, dois fiscais da Receita Federal, para dar cabo a esta missão.
 Eram mais ou menos três horas da tarde, quando um fusquinha na cor cinza, estacionou à sombra de uma árvore, na estrada de acesso à fazenda, com ordem de parar e inspecionar todos os veículos que por lá passassem. Com esta providencia, visavam eles autuar o fazendeiro sonegador, quando por lá passasse no dia de hoje, com suas cargas para as lojas da cidade.
Não tardou muito para que o empresário do campo, tomasse conhecimento da providência da fiscalização. E comentou com um empregado seu.

--- Logo agora que estou com grande quantidade de flores colhidas e um porco abatido... e amanhã ainda por cima é sábado, o dia em que as lojas vendem mais...

--- È patrão... mas se eu fosse o senhor, não me arriscaria passar por lá não... porque eles estão parando todos os veículos e olhando tudo. Disse seu ajudante.

--- Isso não... eu não vou perder esta mercadoria de jeito nenhum... tem que haver um jeito. E pensando desta forma começou a  planejar uma saída para fazer a entrega em suas lojas.

                        Quando foi lá pelas seis horas da tarde, chamou seu empregado e mandou que trouxesse um caixote comprido que havia no celeiro da fazenda. Com um serrote, um martelo e alguns pregos, colocou este caixote com a aparência de um caixão mortuário. Depois disso, mandou que colocasse o porco dentro dele e ajeitasse as flores por cima dele, cobrindo-o de uma tal forma que mal ficou de fora, somente a sua cara. Pegando de dois, colocaram o caixão na carroceria da camioneta e do lado desta, o restante das flores que não couberam dentro. Feito isso partiu para a cidade. Ainda não eram sete horas da noite, quando o motorista do fazendeiro parou no posto de fiscalização, improvisado pela Receita.

--- Boa noite... disse um dos fiscais com uma lanterna na mão, com a qual fazia sinal para que os veículos parassem.

--- Boa noite... respondeu ele de dentro da sua condução.

--- Somos fiscais do governo, e precisamos inspecionar seu veículo. O que o senhor está transportando? Perguntou novamente um dos fiscais.

--- Um defunto... respondeu o fazendeiro, antes de seu motorista.

--- Um defunto ? como assim?... agora de noite?.... quis saber a fiscalização.

--- É... é de pessoa  simples..., mas como na roça as coisas são mais difíceis, e a única condução que tem por aqui é a minha camioneta... como eu não tive tempo de dia, tenho que fazer isso à noite... mas está ai em cima pode olhar se quiser...

Enquanto um dos fiscais ficou conversando com o fazendeiro, o outro se incumbiu de dar uma olhada na carga. Este então, subiu na carroceria e agitando sua lanterna por cima das flores que rodeavam o caixão, gritou.
--- Tudo bem...

--- Olhou dentro do caixão? Perguntou o outro que tinha ficado em baixo.

--- Mas... precisa? Tornou o que estava em cima.

--- Lógico... respondeu o outro.

O fiscal então meio trêmulo, levantou a tampa do caixão e jogando o foco dentro, deu uma rápida olhada  fechando-o novamente. E pulando de cima, disse para o outro.

--- Pode deixa-lo ir.
Este então fazendo sinal com a mão disse.
--- Tudo bem... pode seguir.  Vai com Deus.

A camioneta se arrancou e foi embora.
Os guardas então voltaram pra dentro do carro  e depois de uns minutos de silêncio, o que tinha ficado conversando com o fazendeiro disse.

--- O que aconteceu?... parece que você está assustado por ter visto um defunto?

--- Não sei não viu... não sei se é porque estamos aqui o tempo todo procurando encontrar porco abatido... parece que a gente vai ficando sugestionado.

--- Mas porque você diz isto? Quis saber o outro.

--- Aquele defunto... você pode não acreditar,  mas eu vi nele a cara de um porco...