terça-feira, 5 de julho de 2016

Criança diz cada uma...



Em vamo contá causos...


Criança diz cada uma...


Walter, trabalhava numa fábrica de laticínios, no interior do estado. Davi, apesar de ser  funcionário lotado em seu departamento, também era seu melhor amigo e confidente. Toda tarde, os dois saíam juntos e passavam em um bar para tomar uma cervejinha, antes de ir para casa.

Walter andava muito chateado com o nascimento de seu primeiro filho, pois o pobre menino nascera sem as duas orelhas. Tanto que, principalmente depois do nascimento, Walter passou a ficar mais tempo no bar bebendo, deixando transparecer claramente, sua insatisfação de ir para casa e conviver com aquele triste quadro.

 Davi, por sua vez, já sabia que o filho do seu melhor amigo, nascera com esta deficiência, e durante todo tempo destas tardes prolongadas, procurava escutar com paciência o desabafo do amigo.

--- Eu não tenho nem vontade de chegar em casa... a gente faz tantos planos... e depois... vem a decepção...

--- Quê que é isso cara?... a gente não pode deixar se abater assim não... existe casos piores... pelo menos  no resto ele tem saúde..., disse o Davi.

--- Ah!... mas é duro... e depois, toda visita que chega lá em casa vai logo perguntando pelas orelhas dele... eu já não aguento mais, e minha mulher também... depois que a visita sai, ela chora tanto que dá até pena...

--- Então?... tá vendo só?... você procura fuga no bar... e sua mulher, cara? Ela enfrenta o problema o dia inteiro, e não tem como fugir... ela fica à sua espera, doida para que você chegue e divida com ela esta dor... é aí que a gente tem que mostrar que é forte.

--- Que nada... ela é muito mais forte que eu... neste ponto ela até que me alivia bastante, porque mantém no neném um boné de aviador, de modo que esconde aqueles dois orifícios...

--- Pois é... e eu até estou em falta com vocês... mas como você mesmo disse, numa situação como esta, visitas sempre chateia...

--- Mas espera aí, eu falei de visitas chatas... mas não me referi à sua família, vocês pelo contrário, me dão muito prazer tanto que eu até  falei com a Cleide que vocês ainda não tinham aparecido...

--- Eu vou ver com a patroa... conforme for neste fim de semana a gente deve aparecer por lá...

Acontece, que o problema do Davi não era falta de tempo não, e sim o seu próprio filho. O moleque era muito peralta e extrovertido demais para a idade que tinha, seis aninhos só. E Davi, por sua vez, tinha medo que o garoto fizesse algum comentário sobre as orelhas do neném. E se isso acontecesse, ele e sua esposa iam ficar em verdadeiro “papo de aranha”. Mas por outro lado, não podia mais protelar a visita, pois já estava ficando estranho sua situação junto ao seu amigo. Destarte, chamou seu filho Diego para uma conversa bem particular, onde esclareceu a ele a situação em que estavam vivendo seus amigos. Fez saber a ele, que neste próximo fim de semana, eles iriam então fazer esta visita, e que ele estava terminantemente  proibido de perguntar pelas orelhas do garoto.

No sábado então foram os três para casa do Walter, afim de cumprirem com seus deveres e obrigações de amigos. Walter e Cleide, os receberam muito bem, e sentando-os nos sofás da sala, ficaram os dois conversando sobre futebol, enquanto as duas mulheres conversavam sobre os problemas de amamentação, e os rotineiros problemas do pós-parto.

Diego, o filho do Davi, até que estava se comportando muito bem,  ficava em pé em volta do carrinho onde o neném dormia com aquele boné de aviador. Não perguntava nada, mas no fundo daria tudo para enfiar os dedos, debaixo daquela proteção do boné, para pelo menos sentir como era a situação do garotinho.

 Mas, como diz a máxima “defunto muito encomendado, não chega no céu”, em dado momento Diego falou para o pai do neném.
--- Sabe tio?... seu filho tem uns olhos muito bonitos.

--- Ah! é Diego... você acha-os bonitos. Disse o Walter dando atenção ao moleque.

--- É... e eu estive pensando... eu vou rezar muito para que Deus dê a ele uma visão muito boa.

--- Ah! que bonito... disse a Cleide se intrometendo na conversa dos dois.  ...então você vai rezar pro meu neném?... como você é bonzinho... mas porque esta preocupação com os olhos  dele?

--- A senhora já pensou se ele precisar usar óculos?...



Nenhum comentário:

Postar um comentário