O Massagista
Estava eu ainda jogando no Infantil do
Guarany Esporte Clube, da cidade de Conselheiro Lafaiete, quando este caso
aconteceu.
Naquela época, trinta anos atrás, os clubes
na medida do possível, davam apoio a seus atletas dentro do pequeno orçamento
que era gerado pelas mensalidades dos sócios e as bilheterias dos jogos.
Entretanto como o futebol amador era completamente deficitário, logicamente que
este apoio também o era. De forma tal que jogar futebol naquela época, era uma
aventura bem arriscada e à qual a gente
dava um nome “amor à camisa”.
Normalmente roupeiro e treinador, o clube
procurava manter ás custas de pequenos salários, mas massagista na verdade não
tinha. Contudo, quando o time entrava em campo, aquela caixa pintada de branco
com a tradicional cruz vermelha, ia para as mãos de alguém pois sem ela o time
não podia ficar. Este alguém, na verdade é que era o grande problema, às vezes
era um jogador que não podia jogar naquele jogo ou um torcedor fanático que
acompanhava o time ou ainda, em muitos casos, àqueles que depois tentarem uma
centena de vezes jogar no time, eram por
fim afastados de vez pelo treinador.
Lembro muito bem que naquele tempo em que
joguei, havia um garoto que nunca fiquei sabendo exatamente qual era o seu
nome, mas todos nós o chamávamos de “precêbo”. Ele foi um desses que tentou de
todas as maneiras ser jogador, mas infelizmente nunca conseguiu mostrar
intimidade com a bola. Mas para não se desligar do time, ele se oferecia para
ser o “massagista”. Massagista entre aspas, porque massagem mesmo ninguém se deixava servir de
cobaia nas mãos dele, o máximo que ele fazia era simplesmente ficar com aquela
caixa branca, na orla do campo para atender aos jogadores quando estes
precisassem de algum curativo durante a partida. Nesta caixa tinha apenas um
rolo de gaze, outro de esparadrapo, um vidro de mercúrio cromo e um outro com
éter. Quando algum jogador se machucava com um corte na pele, o mercúrio
entrava em ação, se fosse pancada o remédio era o éter, pois era anestésico.
Era uma tarde de um domingo ensolarado, e o jogo em questão era
com o quadro do Juvenil, nós do infantil já tínhamos jogado mais cedo fazendo a
preliminar.
E ás três e meia em ponto entraram os times
em campo. O time do Guarany, como era o dono do campo, entrava correndo em fila
indiana e quando chegava no centro os
jogadores se abriam numa linha
horizontal e dando as mãos, saudavam a pequena torcida que agradecia com uma
salva de palmas. E o “precêbo” ia junto com aquela caixa branca nas mãos.
O jogo estava duro, o placar de zero a zero
até aquela hora, mostrava muito bem como ele estava sendo disputado. Mas foi aí
que o nosso centroavante foi lançado em profundidade e o quarto zagueiro do
time contrário chegando na frente dele, “limpou a área”. Só que neste chutão
que deu, a bola pegou mal no seu pé e foi direto no “baixo ventre” do nosso
atacante ( o nome dele eu não vou dizer, pois penso ainda salvar nossa amizade
depois disso), e o pobre coitado ficou gemendo no chão. Só quem jogou futebol
sabe como uma bolada no órgão de baixo dói,
a “coisa” arde que até queima.
E rola
pra lá, e rola pra cá, os colegas se acercaram dele para ajudar socorrer. Um
pega nas pernas para fazer flexões, outro manda que ele respire fundo, enfim
cada um dava um palpite. Foi neste momento que o “precêbo” chegou com aquela
fatídica caixa branca, abrindo-a no chão, retirou de dentro o vidro de éter.
Deu uma forte agitada nele e fazendo como se fosse um lança-perfume, deu aquela
esguichada no “negócio” do nosso “artilheiro”. Deve ter ardido muito, porque o
rapaz levantou na hora e gritando correu da área deles até o nosso gol, na
tentativa de fazer com que o vento secasse aquele éter mais depressa.
Agora quanto ao “precêbo” coitado, nunca mais
os jogadores permitiram que ele pusesse novamente as mãos naquela caixa branca.
