quinta-feira, 23 de março de 2017

                                                         




                                                     O Massagista





Estava eu ainda jogando no Infantil do Guarany Esporte Clube, da cidade de Conselheiro Lafaiete, quando este caso aconteceu.
Naquela época, trinta anos atrás, os clubes na medida do possível, davam apoio a seus atletas dentro do pequeno orçamento que era gerado pelas mensalidades dos sócios e as bilheterias dos jogos. Entretanto como o futebol amador era completamente deficitário, logicamente que este apoio também o era. De forma tal que jogar futebol naquela época, era uma aventura  bem arriscada e à qual a gente dava um nome “amor à camisa”.
Normalmente roupeiro e treinador, o clube procurava manter ás custas de pequenos salários, mas massagista na verdade não tinha. Contudo, quando o time entrava em campo, aquela caixa pintada de branco com a tradicional cruz vermelha, ia para as mãos de alguém pois sem ela o time não podia ficar. Este alguém, na verdade é que era o grande problema, às vezes era um jogador que não podia jogar naquele jogo ou um torcedor fanático que acompanhava o time ou ainda, em muitos casos, àqueles que depois tentarem uma centena de vezes jogar no time,  eram por fim afastados de vez pelo treinador.
Lembro muito bem que naquele tempo em que joguei, havia um garoto que nunca fiquei sabendo exatamente qual era o seu nome, mas todos nós o chamávamos de “precêbo”. Ele foi um desses que tentou de todas as maneiras ser jogador, mas infelizmente nunca conseguiu mostrar intimidade com a bola. Mas para não se desligar do time, ele se oferecia para ser o “massagista”. Massagista entre aspas, porque  massagem mesmo ninguém se deixava servir de cobaia nas mãos dele, o máximo que ele fazia era simplesmente ficar com aquela caixa branca, na orla do campo para atender aos jogadores quando estes precisassem de algum curativo durante a partida. Nesta caixa tinha apenas um rolo de gaze, outro de esparadrapo, um vidro de mercúrio cromo e um outro com éter. Quando algum jogador se machucava com um corte na pele, o mercúrio entrava em ação, se fosse pancada o remédio era o éter, pois era anestésico.
Era uma tarde de um  domingo ensolarado, e o jogo em questão era com o quadro do Juvenil, nós do infantil já tínhamos jogado mais cedo fazendo a preliminar.
E ás três e meia em ponto entraram os times em campo. O time do Guarany, como era o dono do campo, entrava correndo em fila indiana e quando chegava no centro  os jogadores se abriam  numa linha horizontal e dando as mãos, saudavam a pequena torcida que agradecia com uma salva de palmas. E o “precêbo” ia junto com aquela caixa branca nas mãos.
O jogo estava duro, o placar de zero a zero até aquela hora, mostrava muito bem como ele estava sendo disputado. Mas foi aí que o nosso centroavante foi lançado em profundidade e o quarto zagueiro do time contrário chegando na frente dele, “limpou a área”. Só que neste chutão que deu, a bola pegou mal no seu pé e foi direto no “baixo ventre” do nosso atacante ( o nome dele eu não vou dizer, pois penso ainda salvar nossa amizade depois disso), e o pobre coitado ficou gemendo no chão. Só quem jogou futebol sabe como uma bolada no órgão de baixo dói,  a “coisa” arde que até queima.  
 E rola pra lá, e rola pra cá, os colegas se acercaram dele para ajudar socorrer. Um pega nas pernas para fazer flexões, outro manda que ele respire fundo, enfim cada um dava um palpite. Foi neste momento que o “precêbo” chegou com aquela fatídica caixa branca, abrindo-a no chão, retirou de dentro o vidro de éter. Deu uma forte agitada nele e fazendo como se fosse um lança-perfume, deu aquela esguichada no “negócio” do nosso “artilheiro”. Deve ter ardido muito, porque o rapaz levantou na hora e gritando correu da área deles até o nosso gol, na tentativa de fazer com que o vento secasse aquele éter mais depressa.
Agora quanto ao “precêbo” coitado, nunca mais os jogadores permitiram que ele pusesse novamente as mãos naquela caixa branca.


Nenhum comentário:

Postar um comentário