Em Vamo Comtá Cauzo???
Como explicar?...
“Dr. Bráulio”, era desta forma que o
engenheiro chefe de um setor da antiga
RFFSA, exigia que fosse tratado por seus subordinados. Morando numa cidade
pequena do interior de Minas Gerais, era como se fosse uma autoridade civil
para aquela população daquele lugarejo. Com seus quase cinquenta anos, era
muito respeitado pela comunidade inteira, uma vez que quase todos os habitantes
eram na verdade ferroviários. Tanto era temido pelos moradores, que muitas
vezes era chamado para intervir em querelas, como se fosse um delegado ou coisa
parecida.
Dr. Bráulio morava numa casa existente dentro
do pátio da própria Ferrovia, que fora construída para esta finalidade, servir
de residência para o chefe do setor. Esta casa de estilo inglês, construída nos
primórdios da implantação da oficina naquele distrito, por ter bem mais do que os cinquenta anos de
seu morador, já há bastante tempo estava merecendo a atenção dele para uma
reforma tida por inteiro. Mas o austero engenheiro, sempre adiava esta tão
solicitada reforma que o casarão pedia, junto com o endosso de Dona Olívia, sua
paciente esposa.
Conta-se que no quarto onde o nobre casal
dormia, tinha um armário enorme, feito com grossas madeiras de lei e pesadas portas sustentadas por exageradas
dobradiças de ferro, comprovando a facilidade com que eram construídas estas
casas, na época em que foram arquitetadas. Tempo este em que, como diz os mais
antigos, “amarrava-se cachorro com linguiça”. E vencido pelo tempo e as
constantes trepidações do terreno, quase todas as noites quando passava um
trem, uma das portas despencava de sua dobradiça e acordava-os de sobressalto.
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Diacho... esta porcaria só cai de noite. Falava ele após acordar, e puxando o
cobertor, virava para a beira da cama e roncava de novo.
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É... você sempre diz isto... mas providencias mesmo que é bom, você nunca toma.
Repetia também a frase de todas as noites, sua “inigualável” esposa.
Mas tantas vezes aconteceu desta porta cair,
que numa bela manhã, Dona Olívia conseguiu obter dele o consentimento para mandar o carpinteiro da sua turma de
trabalho, fazer no dia de hoje, pelo menos um rápido conserto, afim de evitar a
continuação do desastrado e inconveniente despencamento noturno.
O
dia estava passando e nada do carpinteiro chegar. Dona Olívia, com medo de que
seu marido tivesse esquecido ou mudado de ideia, mandou recado por um funcionário
que passava no pátio perto de sua casa, para o encarregado da oficina, dizendo
necessitar do trabalho de um carpinteiro.
Não
levou muito tempo, e o carpinteiro chegou. Era o terrível Amâncio. Excelente
profissional, mas com uma fama de cínico, safado e sem vergonha por conta de
seus encontros furtivos, com algumas esposas mal amadas da região. Talvez fosse
até por isso, que o Dr. Bráulio não tomava a decisão de mandá-lo fazer o
conserto, temendo não poder estar em casa por aquela hora, e com isso, iniciar
boatos inconvenientes sobre sua vida conjugal.
Coitado do Amâncio, sabedor de sua fama ele
até que procurava evitar situações que pudesse colocar dúvidas em suas
atitudes. Mas, ordem é ordem, e não podendo contesta-la, para lá se dirigiu
afim de consertar o tal armário encrencado.
Muito competente, desmontou as dobradiças e
montou-as novamente no armário, terminando logo a operação. Quando se preparava
para ir embora, enquanto juntava suas ferramentas, passou o trem de minério das
três horas, e a porta inexplicavelmente caiu outra vez. Dona Olívia, orientada
pelo barulho, correu logo ao quarto, e encontrou o Amâncio quase sem fala, pois
por pouco a porta não o acidentou.
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Que foi seu Amâncio?... machucou? Perguntou a atenciosa mulher.
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È... porta peralta, Dona Olívia... A senhora acredita que eu desmontei ela
todinha e tornei montá, e o danado do
defeito num saiu... agora só tem um jeito de discobri este tipo de defeito...
eu vou ficá dentro do armário com ele fechado, pruquê tá na hora de passá o “cargueiro”
das trêis e quinze. E por dentro, a gente tem jeito de vê o que acontece com a
danada da dorbradiça, quando começa a trepidação.
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Pois não, seu Amâncio... fique a vontade, já que o senhor felizmente não se
machucou, eu vou então continuar lavando minhas roupas lá no tanque.
Amâncio então assim fez, ajeitou para um lado as roupas do Dr. Bráulio,
e entrando no armário fechou a porta e ficou a espera do próximo trem, que não
demoraria muito a passar.
Dr. Bráulio, que normalmente chegava em casa todo
dia, depois das quatro e meia, hoje chegou mais cedo porque tinha que ir á rua
fazer as compras do mês, e era sempre ele que as fazia. Pois muito machista,
não dava esta liberdade para a sua esposa. Quando muito, ela ia junto com ele.
E entrando pela cozinha, não vendo sua esposa na área ao lado, “ralando a barriga” num tanque cheio de
roupas sujas, foi direto ao seu quarto trocar a roupa de trabalho. E abrindo a
porta do armário, já sem a camisa, disse meio sem graça.
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Amâncio?!?!... Oliviiiiaaa... que signifiiica issooo?
Amâncio,
que estava sentado dentro do armário, notando o espanto do chefe, e lembrando
da sua fama, disse em meio a um sorriso irônico.
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Se eu falá que tô esperando o trem passá, o senhor vai querditá?...



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