terça-feira, 16 de agosto de 2016

Simplicidade...

Em Vamo Contá Causos...

                                


                                          Simplicidade




Este fato aconteceu no final dos anos sessenta. Estava eu e mais três amigos nos preparando para prestar exames para a Força Aérea Brasileira.  Estas provas aconteciam anualmente numa mesma data e hora, em todo o pais. Cada candidato se apresentava no local mais próximo de sua cidade, e como éramos de Conselheiro Lafaiete, fomos presta-las em Belo horizonte.
Tínhamos em média 17 anos e ainda sem um emprego definido, por isso ficávamos totalmente às expensas de nossos pais. E como todos nós vínhamos oriundos de proles grandes, procurávamos resolver nossos problemas, sem nos tornarmos mais um peso dentro daquele orçamento familiar a que pertencíamos. De forma tal que, fomos para a capital mineira levando nos bolsos apenas o dinheiro necessário para a despesa com uma refeição diária, e esta, não podia passar nunca do equivalente a um “prato feito” servido em restaurante de segunda ou terceira categoria.
 Esta análise que estou fazendo, hoje tem sentido porque nos meus cinquenta e um anos de idade, a vida me proporcionou gozar de situações de excessivo conforto, tais como hotéis cinco estrelas ou restaurantes de luxo. Mas na época em que aquela situação acontecia, nenhum de nós tínhamos qualquer experiência neste sentido, e como tal, comer um “PF” era a coisa mais natural do mundo.
Ficamos hospedado na Base Aérea isto é, podíamos dormir e tomar um café reforçado pela manhã. O resto do dia era problema nosso tapear o estômago. As provas foram prestadas no Estádio Mineirão que todos conhecem, e começando por volta de 8 horas iam até  ao meio dia, durante os quatro dias de duração.
Do lado de fora do Estádio nos reuníamos novamente e saíamos comentando as questões dadas no exame, retornando para o alojamento da Base, afim de continuar estudando para a prova do dia seguinte. E neste caminho de volta, aproveitávamos e passávamos em um restaurante simplesinho, onde um “PF” custava  só Cr$ 2,50 e almoçávamos. Logo depois então, completávamos  nosso retorno, passando ao lado do aeroporto da Pampulha, para entrar novamente na Base Aérea. Porém toda vez que passávamos pelo o aeroporto, um de nós comentava que podíamos muito bem comer no restaurante do Aeroporto, pois o “PF” de lá não poderia ser muito mais caro que nos bares da redondeza, afinal “PF” é “PF” em qualquer lugar. Apesar do desejo de todos nós em comer naquele restaurante “chic”, a ideia não conseguia unanimidade, pois o preço era uma incógnita. Mas, “água mole em pedra dura, tanto bate que até fura”, ficou decidido que no último dia, então jantaríamos no famoso restaurante da Pampulha.
E assim fizemos, ás dezenove horas em ponto daquela quinta-feira, depois de passear um pouco pelas redondezas do aeroporto, entramos então para saciar duplamente nossos desejos, ou seja, nossa fome e nossa curiosidade.
Procuramos então uma mesa mais no meio do salão, e sentamo-nos. Não demorou muito e um garçom muito educado, pedindo licença, nos entregou o cardápio. Antes mesmo que ele se retirasse para nos dar um breve tempo para a escolha dos pratos, o Edem ( hoje é ortodontista) interrompeu sua retirada, lhe dizendo.

--- Escuta aqui meu amigo... não precisamos de cardápio não... você vê pra nós quatro “PFs”.

--- Hã?... disse o garçom, e completou com um sorriso meio lacônico... “PF”?...  quatro “PFs”?... vendo então que todos balançavam a cabeça concordando, ele concertou o sorriso e disse.. hã... sim, sim... pois não.

Ali ficamos mais ou menos por uma hora batendo papo e observando as pessoas que ali entravam para jantar. Os homens normalmente usando ternos e as mulheres com aqueles vestidos longos, algumas até usavam luvas compridas que iam até o meio do antebraço.

E o “PF” nada de chegar, já estávamos quase reclamando com o garçom pela dura demora, quando aproximou de nós um garçom mais velho e mais respeitoso que o anterior, era o Maitre. Este com toda a “delicadeza do mundo” nos falou.

--- Boa noite... perdão cavalheiros... o nosso cozinheiro se atrapalhou com os pedidos, e preparou para vocês uma saladinha de tomate no capricho, um arroz á grega, um purêzinho de batata e um  bife de contra-filé que está uma delícia...
--- Mas chefe... acontece que o nosso dinheiro só dá pra um “PF”? disse o Fernando( este, passou nas provas e hoje é Tenente da Aeronáutica) e eu endossei suas palavras...
--- Mas... meus senhores... longe mim querer explorar vocês... O que estou propondo, fica por conta do preço do “prato feito”, e junto do nosso pedido de desculpas, pelo erro do desastrado cozinheiro... nem um centavo a mais...
--- Se é assim... eu não tenho nada contra, disse o Edem.
--- Nem eu, respondi
--- Nem nós, responderam os dois Fernandos.

E assim então comemos aquela refeição, e fomos para Base Aérea dormir nossa última noite em Belo Horizonte.


Só depois de muitos anos, é que contando este caso para alguém, eu entendi o procedimento do Maitre. Pois como o restaurante era de luxo, ele não querendo denegrir seu nome servindo “PFs”, usou de extrema fineza e nos convenceu a trocar o pedido, e o que é mais importante, fez isso sem nos humilhar. Nota dez pra você Maitre.




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