Simplicidade
Este fato aconteceu no final dos anos
sessenta. Estava eu e mais três amigos nos preparando para prestar exames para
a Força Aérea Brasileira. Estas provas
aconteciam anualmente numa mesma data e hora, em todo o pais. Cada candidato se
apresentava no local mais próximo de sua cidade, e como éramos de Conselheiro
Lafaiete, fomos presta-las em Belo horizonte.
Tínhamos em média 17 anos e ainda sem um
emprego definido, por isso ficávamos totalmente às expensas de nossos pais. E
como todos nós vínhamos oriundos de proles grandes, procurávamos resolver
nossos problemas, sem nos tornarmos mais um peso dentro daquele orçamento
familiar a que pertencíamos. De forma tal que, fomos para a capital mineira
levando nos bolsos apenas o dinheiro necessário para a despesa com uma refeição
diária, e esta, não podia passar nunca do equivalente a um “prato feito”
servido em restaurante de segunda ou terceira categoria.
Esta
análise que estou fazendo, hoje tem sentido porque nos meus cinquenta e um anos
de idade, a vida me proporcionou gozar de situações de excessivo conforto, tais
como hotéis cinco estrelas ou restaurantes de luxo. Mas na época em que aquela
situação acontecia, nenhum de nós tínhamos qualquer experiência neste sentido,
e como tal, comer um “PF” era a coisa mais natural do mundo.
Ficamos hospedado na Base Aérea isto é,
podíamos dormir e tomar um café reforçado pela manhã. O resto do dia era
problema nosso tapear o estômago. As provas foram prestadas no Estádio Mineirão
que todos conhecem, e começando por volta de 8 horas iam até ao meio dia, durante os quatro dias de duração.
Do lado de fora do Estádio nos reuníamos
novamente e saíamos comentando as questões dadas no exame, retornando para o
alojamento da Base, afim de continuar estudando para a prova do dia seguinte. E
neste caminho de volta, aproveitávamos e passávamos em um restaurante
simplesinho, onde um “PF” custava só Cr$
2,50 e almoçávamos. Logo depois então, completávamos nosso retorno, passando ao lado do aeroporto
da Pampulha, para entrar novamente na Base Aérea. Porém toda vez que passávamos
pelo o aeroporto, um de nós comentava que podíamos muito bem comer no
restaurante do Aeroporto, pois o “PF” de lá não poderia ser muito mais caro que
nos bares da redondeza, afinal “PF” é “PF” em qualquer lugar. Apesar do desejo
de todos nós em comer naquele restaurante “chic”, a ideia não conseguia
unanimidade, pois o preço era uma incógnita. Mas, “água mole em pedra dura,
tanto bate que até fura”, ficou decidido que no último dia, então jantaríamos
no famoso restaurante da Pampulha.
E assim fizemos, ás dezenove horas em ponto
daquela quinta-feira, depois de passear um pouco pelas redondezas do aeroporto,
entramos então para saciar duplamente nossos desejos, ou seja, nossa fome e
nossa curiosidade.
Procuramos então uma mesa mais no meio do
salão, e sentamo-nos. Não demorou muito e um garçom muito educado, pedindo
licença, nos entregou o cardápio. Antes mesmo que ele se retirasse para nos dar
um breve tempo para a escolha dos pratos, o Edem ( hoje é ortodontista)
interrompeu sua retirada, lhe dizendo.
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Escuta aqui meu amigo... não precisamos de cardápio não... você vê pra nós
quatro “PFs”.
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Hã?... disse o garçom, e completou com um sorriso meio lacônico...
“PF”?... quatro “PFs”?... vendo então
que todos balançavam a cabeça concordando, ele concertou o sorriso e disse..
hã... sim, sim... pois não.
Ali ficamos mais ou menos por uma hora
batendo papo e observando as pessoas que ali entravam para jantar. Os homens
normalmente usando ternos e as mulheres com aqueles vestidos longos, algumas
até usavam luvas compridas que iam até o meio do antebraço.
E o “PF” nada de chegar, já estávamos quase
reclamando com o garçom pela dura demora, quando aproximou de nós um garçom
mais velho e mais respeitoso que o anterior, era o Maitre. Este com toda a
“delicadeza do mundo” nos falou.
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Boa noite... perdão cavalheiros... o nosso cozinheiro se atrapalhou com os
pedidos, e preparou para vocês uma saladinha de tomate no capricho, um arroz á
grega, um purêzinho de batata e um bife
de contra-filé que está uma delícia...
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Mas chefe... acontece que o nosso dinheiro só dá pra um “PF”? disse o Fernando(
este, passou nas provas e hoje é Tenente da Aeronáutica) e eu endossei suas
palavras...
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Mas... meus senhores... longe mim querer explorar vocês... O que estou
propondo, fica por conta do preço do “prato feito”, e junto do nosso pedido de
desculpas, pelo erro do desastrado cozinheiro... nem um centavo a mais...
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Se é assim... eu não tenho nada contra, disse o Edem.
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Nem eu, respondi
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Nem nós, responderam os dois Fernandos.
E assim então comemos aquela refeição, e
fomos para Base Aérea dormir nossa última noite em Belo Horizonte.
Só depois de muitos anos, é que contando este
caso para alguém, eu entendi o procedimento do Maitre. Pois como o restaurante
era de luxo, ele não querendo denegrir seu nome servindo “PFs”, usou de extrema
fineza e nos convenceu a trocar o pedido, e o que é mais importante, fez isso
sem nos humilhar. Nota dez pra você Maitre.


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